Quando a Rua é o melhor sítio para Brincar e Crescer
Vivemos numa daquelas ruas à antiga. Centro da cidade onde só entram os moradores, todos nos conhecemos e podemos pedir cebolas ou ovos se nos esquecemos de comprar. Somos a família mais nova com muitos anos de diferença dos demais, e durante o ano o nosso filho é a única criança que lá vive.
No Verão tudo muda. Os netos das vizinhas vêm de férias das cidades distantes onde vivem, e é uma correria de primos e amigos, outros miúdos das ruas vizinhas também se juntam ao reboliço.
Há festivais de música para ganhar umas moedas dos turistas que servem para comprar pacotes de batatas fritas ou gelados para dividir por todos.
Há derbies de bola com grandes, pequenos, meninos e meninas.
Há bonecas, casinhas e famílias que se constituem e destroem ao ritmo do pôr do sol.
Há bicicletas, trotinetas e skates com os gritos das avós em cuidados para não riscar os carros dos vizinhos.
Há pedidos de torradas “daquele pão” a uma vizinha, há panquecas com mel da outra.
Há pés pretos da rua, camisolas estampadas de nódoas, joelhos esfolados e bigodes sujos.
Há arrufos, zangas, reconciliações, resoluções de conflitos com belinhas.
Há alegria, gritos, gargalhadas e sorrisos cúmplices atrás dos vidros das janelas.
Há bandas e instrumentos musicais que se “roubam” de casa.
Não há tablets, computadores ou consolas.
Não há televisão durante horas intermináveis.
Tudo isto é maravilhoso! Sinto-me a viver o sonho e dentro da minha cabeça só imagino todas as memórias que o meu filho terá no futuro. Penso em todas as palestras que ouvi do Professor Carlos Neto e sinto-me orgulhosa de permitir as nódoas negras e estes momentos de viver a Rua.
Há muito pouca intervenção dos adultos nestas brincadeiras, os mais velhos têm que respeitar e ajustar-se aos mais novos. Os mais pequenos percebem que o mundo não é como eles querem e têm que gerir-se para poder brincar.
O meu filho, com 3 anos fresquinhos, foge de casa e vai bater à porta da vizinha com ânsia de brincar.
Sim, foge! Abre a porta de casa sorrateiramente e assim que põe o pé na rua começa a correr e a esconder-se por detrás dos carros para nós não o apanharmos e assim poder brincar mais uns minutos.
Por mais chato que isto possa ser, eu e o pai, rasgamos sorrisos pela alegria que é termos esta oportunidade de nos sentarmos no paiol da nossa porta e ver a alegria estampada em cada célula do corpo destes miúdos sortudos.
Porque a maioria das memórias que tenho de infância são das brincadeiras na minha Rua com os meus vizinhos. Sonho com as histórias que o meu filho contará no futuro, destas suas brincadeiras.
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Autor: Juliana Barroso

